A economia americana deve se recuperar da crise e registrar números melhores neste ano de 2014. Com isso, o governo dos Estados Unidos pode terminar a retirada dos estímulos econômicos e aumentar os juros. Para o Brasil, especialistas consultados pelo DCI acreditam que as consequências desse processo deve ser uma alta do câmbio, mas não sabem precisar quando isso deve começar a influenciar, nem qual será seu impacto.
Segundo o diretor de câmbio do Banco Rendimento, Carlos Eduardo de Andrade Jr, a mudança deve dar algum efeito de alta no preço do dólar. “Se os juros sobem lá, fica mais atrativo e há possibilidade de algum dinheiro que viria para cá acabar indo para lá, agora de que tamanho será isso, não sabemos. Por enquanto ele [Fed, banco central americano] só está começando a retirar estímulos, e depois vai subir os juros, isso vai acontecer mais dia ou menos dia”, disse o especialista.
Ele lembrou que os juros americanos estavam perto de 6% antes da crise econômica, e que agora ficam na casa de 0,5%. “Isso é uma ótima razão para que a população gaste dinheiro, mas acho que nem o Fed sabe quando é que esses juros vão voltar ao normal”, completou, estimando que o processo de fim dos estímulos seja concluído ainda neste ano.
Para o diretor-presidente do Instituto Fractal de Análises de Mercado, Celso Grisi, a possível alta do câmbio pode ajudar o Brasil nas vendas de commodities e de alguns manufaturados, mas alertou para a possibilidade de que ocorra uma alta na inflação.
“Se a inflação tivesse que ser combatida só pela alta de juros não conseguiríamos, temos que combater isso pelo lado fiscal, até um certo momento dá retomar dá para retomar a política de juros mais alto”, disse.
“Quando você importa com dólar mais caro, gasta mais reais e terá que passar isso ao consumidor final, tudo agravado pelos produtos agrícolas que devem apresentar preços maiores, precisa trabalhar no lado fiscal mas politicamente isso é muito desgastante, esse governo não parece conseguir mais ter controle sobre a parte fiscal”, completou.
O diretor da Méthode Consultoria, Adriano Gomes, também ressaltou que essa melhora da economia americana irá aumentar a cotação do dólar e consequentemente o preço do petróleo. “A alta do dólar, portanto, vai bater de forma bastante contundente no índice inflacionário”, colocou acrescentando que “o governo não assume suas próprias responsabilidades, quando os Estados Unidos estavam mal, culpou-se a enxurrada de dólares e agora culpa-se a retomada”.
“As coisas tendem a estabilizar, se a economia americana está se estabilizando deveríamos ter um acordo bilateral com os Estados Unidos, estamos atrelados a isso, são mercados profundamente competitivos”, completou Gomes.
Previsões
Os especialistas consultados pelo Banco Central (BC) aumentaram a perspectiva para a taxa de câmbio no final deste ano. Segundo o relatório Focus, publicado ontem, a expectativa é que a moeda americana feche o ano em R$ 2,48. Há uma semana a previsão era de R$ 2,47 e há um mês, de R$ 2,45. Para os meses de fevereiro e março o relatório aponta uma taxa de câmbio de R$ 2,40, e esse número é mantido há duas semanas.
Para 2015 a expectativa do mercado é que a moeda americana feche cotada em R$ 2,55. Há uma semana o mercado esperava uma taxa de R$ 2,53 e há um mês, de R$ 2,50. O chamado “Top 5”, grupo de especialistas que mais acertam as previsões, estão mais otimistas e apontaram que a taxa deva fechar o ano em R$ 2,45.
Para o diretor do Banco Rendimento, essa alta na expectativa de cotação do câmbio já pode ser uma consequência das possíveis mudanças na economia americana. “Se fosse seis meses atrás, estaríamos todos desconsiderando o quer que viesse dos Estados Unidos, o humor de todo mundo está mudando, a situação está mudando e certamente não é bom para o Brasil mas também não é uma catástrofe”, disse.
“Eu acho que o que está acontecendo hoje é uma questão de desconfiança, as razões para isso são muito mais internas do que externas, no final tudo acaba na questão fiscal, é ano de eleição, tem se gastado muito dinheiro, as decisões do governo não têm sido as mais ortodoxas e isso deixa todo mundo receoso, certamente as pessoas estão olhando a cada dia que passa com mais desconforto”, completou.
Ontem, o dólar fechou em alta de 0,13%, cotado a R$ 2,38. Para março, a moeda americana recuava 0,15% ante o real às 16h30, a R$ 2,3945. O giro financeiro no mercado à vista era de US$ 665,4 milhões no horário acima, segundo dados da clearing (central) de câmbio da BM&FBovespa.
Fonte: Diário do Comércio e Indústria