Avaliar as características do açúcar operado no Porto de Santos, para evitar o risco de incêndios nas instalações, será uma das tarefas de um comitê a ser criado pela Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp). A ideia surgiu durante o seminário Prevenção e combate a incêndios em terminais de movimentação de açúcar a granel no Porto de Santos, que aconteceu na quarta e na quinta-feira passadas, na sede da empresa. O evento debateu as ocorrências desse tipo de sinistro no último um ano e meio na região.
Conforme divulgado em outubro por A Tribuna, a baixa umidade e as novas especificações da commodity exportada pelo cais santista – mais fina e seca – podem ser fatores de risco para a propagação das chamas nas instalações marítimas. Esta questão também foi debatida no seminário.
Os terminais não informam se operavam com esse novo açúcar quando os acidentes aconteceram. Mas sua movimentação ocorre com frequência no Porto. A commodity é uma mercadoria de alta combustão e, quanto mais seca e fina (como no caso desse novo tipo de produto), maior o risco da propagação das chamas. O perigo é intensificado em ambientes de baixa umidade do ar, com equipamentos ligados a plena capacidade.
Esse cenário foi debatido durante a participação de executivos da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), que representa as usinas, no seminário. Para a superintendente de Saúde, Segurança e Meio Ambiente da Codesp, Alexandra Sofia Grota, é muito provável que as características da carga sejam causas do aumento no número de incêndios no Porto.
“São especificações diferentes. Uma coisa é você medir a granulometria (tamanho médio do grão) dentro da usina. Outra coisa é quando a carga chegou no terminal. Já é diferente a composição do produto. São vários parâmetros avaliados. São especificações que variam também em função de quem é o seu cliente”, explicou a superintendente da Codesp.
Segundo Alexandra, ao comprar a commodity, cada cliente pode pedir um produto com uma granulometria específica. E isso deve ser controlado ao longo da cadeia logística. “Se conseguirmos unir produtores de açúcar com os terminais da cadeia para tentar acertar algumas propriedades, vai ser fundamental”, explicou.
A ideia é fazer com que o comitê a ser criado pela Codesp facilite o acesso dos terminais portuários à Unica, para esta avaliação. Esta foi uma das principais heranças deixadas pelo seminário.
“Houve um entendimento. A gente chegou a perguntar quem iria capitanear isso. E eles falaram que, se a Autoridade Portuária entrar em contato com a Unica, eles vão nos receber para a gente iniciar essa conversa. Então, para mim, foi um grande avanço, um balanço muito bom do seminário”, destacou Alexandra Sofia Grota.
Qualidade do ar
“Nuvens” de açúcar (formadas pelos grãos mais finos da commodity, quando são movimentados) são facilmente perceptíveis sobre terminais que operam a carga no cais santista, em dia de ventos moderados. Por isso, a Prefeitura de Santos resolveu questionar a Autoridade Portuária sobre esta nova realidade.
Para a superintendente da Codesp, este tipo de poluição é outro ponto que merece atenção e foi debatido durante o seminário. “Ainda acho que tem a questão do controle da poluição do ar e que a gente tem que trabalhar muito nisso. Os terminais precisam se esforçar nessa questão e esse é um trabalho de todos.
A Cetesb (autoridade ambiental do Governo do Estado) também. E a participação dos órgãos ambientais é fundamental, não só durante o combate (a incêndios), como a gente viu que em alguns casos houve um impacto grande no meio ambiente, mas até na prevenção desses acidentes”, afirmou.
O projeto que prevê a melhoria dos procedimentos preventivos de incêndios e de correção dos sistemas de segurança do Porto e, também, dos próprios terminais portuários é outra bandeira levantada pela Companhia Docas, relacionada ao combate a esse tipo de sinistro. Mas, neste caso, não há previsão de quando normas sobre esse setor sejam definidas pela estatal.
Fonte: A Tribuna