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CEO da Embraport acredita na retomada da economia brasileira

O atual cenário econômico brasileiro deve se prolongar pelos próximos meses. Mas com a implantação das medidas em estudo pelo Governo Federal, o mercado deve reagir e uma retomada pode começar no segundo semestre do próximo ano. Essa é a expectativa de Ernst Schulze, CEO da Embraport (um dos novos terminais de contêineres do Porto de Santos) e entrevistado desta semana da série 2015 em Análise – que A Tribuna publica aos domingos, até o início do próximo mês.

Com uma capacidade para operar 1,2 milhão TEU (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés), o Terminal Embraport deve fechar 2014 com 600 mil TEU, quantidade inferior ao previsto no início do ano. Mas para o próximo exercício, a perspectiva é de crescimento, um dos fatores que motivou recentes empreendimentos, como a construção de um acesso ferroviário. Para Schulze, esse é o momento de preparar a unidade para melhor atender um maior volume de cargas, quando a economia se recuperar.

Confira por que o executivo considera que os investimentos no Porto de Santos não podem parar na entrevista a seguir.

Quais suas expectativas para a economia brasileira em 2015 ?

É um pouco difícil ter uma indicação sobre como será a economia no próximo ano. Depende da situação política. Para o Porto de Santos, para o setor de contêineres e de carga geral, eu acho que a primeira parte do próximo ano será quieta, um pouco como está hoje. Em junho, julho deste ano, nós vimos que o movimento começou a cair. Agora, serão precisos alguns meses para a movimentação começar a crescer. O Governo tem planos para ser em executados elevará alguns meses para que essa estratégias e já implementada. Mas a segunda parte de 2015 será muito melhor.

Porquê?

Primeiro porque, tradicionalmente, a segunda metade é melhor do que a primeira. E eu acredito que, nos próximos meses, quando o Governo tiver definido seus investimentos e todos estiverem se preparando, nós vamos melhorar a segunda parte de 2015. Mas é claro que depende da situação da economia. Se nós olharmos a economia mundial, a América tem um desempenho bom, a Europa também está bem, não está ótima, mas está bem. A Rússia está com problemas. No Extremo Oriente, a China está desacelerando, mas ainda está crescendo. Por outro lado, no Sudeste Asiático, os países estão crescendo, assim como na África. Sempre haverá áreas no mundo que estarão com problemas e outras que estarão bem. E não há qualquer indício de que, no próximo ano, não haverá uma retomada da economia brasileira. Vai demorar um pouco, provavelmente alguns meses, mas teremos essa recuperação.

Nessa retomada, quais os maiores cuidados que o Governo deve tomar?

Uma das áreas que precisam de maior desenvolvimento é a de infraestrutura, que é muito importante. Os planos do Governo para essa área são estratégicos. Por exemplo, olhe a rodovia de Cubatão (Rodovia Piaçaguera-Guarujá/Cônego Domênico Rangoni). Suas obras estão concluídas. Você verá que não há mais congestionamentos como os que ocorreram nos últimos anos. Nós vemos agora que o fluxo de caminhões vai muito mais rápido. A infraestrutura é muito importante e você também tem de ter investidores estrangeiros para isso. Mas você deve ter um ambiente para eles se sentirem confortáveis em investir no País.

Como garantir esse ambiente?

Esse ambiente vai influenciar a confiança que os investidores estrangeiros têm no País. No passado, houve muitos investimentos estrangeiros. Mas nos últimos meses, especialmente no período de eleições, os investidores ficaram mais cuidadosos. Porém, no próximo ano, os investidores estrangeiros vão voltar. Outro fator que deve ser levado em conta é a taxa de câmbio, queestá um pouco instável no momento. Se pelo menos tivermos um câmbio estável, as pessoas podem se planejar. Se o câmbio ficar subindo e descendo, é pior, pois não se sabe o que fazer. Veja que é importante as pessoas saberem o que está acontecendo. A incerteza é o pior. Se há muita incerteza, as pessoas preferem esperar. Tão logo haja uma maior certeza, tanto sobre os planos econômicos do Governo, as pessoas vão analisar, tomar suas decisões e voltar a investir. Vai levar algum tempo, sim. Mas não há razão para não haver uma retomada da economia brasileira, pois os fundamentos econômicos do País são bons. Se você verificar o potencial de exportação, os recursos brasileiros, eles não mudaram em relação à época em que a economia brasileira estava melhor. Esses fundamentos ainda estão aí. Basta só ter confiança.

Quanto aos atuais investimentos no País, há algum risco?

Você não pode fazer investimentos de longo prazo e, então, mudar seus planos com base em um ano em que a economia não tem um desempenho bom. Um investimento de longo prazo leva em consideração uma indicação de como a economia se desenvolverá. Eu acredito que a expansão da infraestrutura é bastante necessária, tanto no Porto de Santos, como no Brasil. Há dois anos, antes da abertura da BTP (Brasil Terminal Portuário) e da Embraport, a estrada (Rodovia Cônego Domênico Rangoni) estava em um estado inferior ao de hoje, o tempo de espera de caminhões e os atrasos eram bem maiores. Hoje, o que vemos é um fluxo maior e há menos congestionamentos. Isto indica que o custo logístico é bem menor nestes dias. O tempo de estadia (da carga no terminal) está menor. Os importadores têm sido capazes de pegar os contêineres mais facilmente. Os caminhoneiros estão menos frustrados, pois eles não têm mais de esperar dois dias em uma fila para entrar no terminal. Agora podem entrar direto. Então, os custos têm caído. Isto mostra o impacto de se investirem infraestrutura. A situação vai melhorar. Mais cargas virão para Santos e nós vamos precisar da infraestrutura extra. Por isso não há razão para parar os investimentos. Veja a dragagem, por exemplo.

O Sr. se refere ao aprofundamento do canal do Porto?

Sim. Há dois anos, a dragagem era um problema. Os grandes navios não podiam vir para Santos. E hoje isso melhorou significativamente. Nós vemos mais e mais navios maiores vindo para cá. Nós temos agora, no Porto de Santos, navios de 8,7 mil TEU (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés),com 345 metros (de comprimento). E a próxima geração já está esperando. Os navios de 360, 370 metros. Agora, eles estão nas rotas entre a América e o Extremo Oriente e a Europa e o Extremo Oriente. Mas vão colocar navios ainda maiores lá. E esses navios vão ser deslocados para a América do Sul. É muito importante que continuemos investindo no aprofundamento do canal, pois esses navios maiores vão vir.

A dragagem é prioridade ?

Sim. E veja que o volume de importação e o de exportação de contêineres caiu. Mas isso se deve à situação econômica. Mas a movimentação global de contêineres em Santos está crescendo.

Sim, porém isso se deve ao transbordo e à cabotagem. Se você olhar a cabotagem, ela era muito pequena quando Santos tinha os problemas de congestionamento. Desde então, cresceu enormemente. E o transbordo também. Isso ocorreu porque, hoje, você pode entrar com esses navios maiores no Porto e passar suas cargas para linhas de cabotagem, ou transbordá-las para outras embarcações. Se você não tivesse a dragagem, você não conseguiria receber esses navios maiores e não poderia fazer isso. Sempre dissemos que a função de Santos é uma função concentradora, importar e exportar, atendendo sua área de influência, onde 55%, 60% do PIB nacional são gerados. A localização do Porto de Santos é muito boa. Ao seu redor, há um mercado natural de importação e exportação. E se você trouxer esses navios maiores, há a oportunidade de fazer mais operações de cabotagem e transbordo. É uma grande oportunidade para o Porto. Veja que nós, no Porto de Santos, estamos em uma posição que nunca estivemos antes, em relação à dragagem do canal. Mas ainda há muito o que fazer. Nós devemos continuar investindo.

Santos deve estar preparado para esses navios maiores a partir de quando ?

Tão logo quanto possível. Estou convencido de que, se hoje Santos conseguisse receber navios de 15 ou 15,5 metros de calado, não iria se esperar muito tempo para eles começarem a vir. E não é apenas uma questão de dragagem. Há também melhorias a serem feitas nas curvas do canal, na geometria do canal, para que navios com esse comprimento possam navegar pelo Porto.

E quanto a obras para melhorar o transporte de cargas entre o Porto e o interior do País? Qual deve ter prioridade, os acessos ferroviários ou rodoviários?

Você tem de fazer ambos.Mas acredito que a ferrovia é mais importante, pois tira cargas da estrada. É por isso que estamos investindo no nosso acesso ferroviário. Ele entrará em operação nos primeiros meses de 2015. Fisicamente, deve estar concluído em quatro ou cinco semanas. Mas então, teremos de obter as licenças necessárias. Mas espero receber o primeiro trem no final do primeiro trimestre. Será uma excelente vantagem para o Porto de Santos e para a Embraport contar com esse acesso.

Qual foi o investimento da Embraport nesse acesso?

R$ 40 milhões.

Qual será sua capacidade?

Cerca de 200.000 TEU por ano. Mas a capacidade do acesso não é o problema aqui. O gargalo está no acesso ferroviário ao Porto.

Qual o impacto dessa obra no Porto ?

Hoje, no Porto de Santos, apenas 2% dos contêineres são movimentados por trem. Com esse novo acesso, em três anos, podemos chegar a 5%. Na Embraport, temos uma capacidade de movimentação de 1,2 milhão de TEU por ano na fase 1 (atual). Se você olhar o acesso, ele terá uma capacidade de 200.000 TEU por ano.

Por que esse investimento foi realizado agora?

Primeiro por que já estava em nosso projeto. Depois por que este é um ótimo momento para investir, considerando que as operações não estão tão altas. Esse é o momento de prepararmos melhor o terminal para quando o mercado se recuperar.

Fonte: A Tribuna