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Comércio exterior deverá testar espírito liberal do governo Bolsonaro

Agenda liberal proposta por novo governo brasileiro anima especialistas em relações internacionais. Para eles, mais abertura comercial pode estimular a produtividade do país

Uma das áreas que deverão testar o espírito liberal do governo de Jair Bolsonaro será no comércio exterior. O programa de governo, apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), é explícito ao defender maior abertura comercial, por ser uma das “maneiras mais efetivas” para a promoção do crescimento da economia no longo prazo.

Intitulado “Caminho para a prosperidade”, o plano afirma que o Brasil é um país fechado para o comércio global — ao contrário das nações mais prósperas. “A consequência direta disso é nossa dificuldade em competir em segmentos de alta tecnologia”, diz o documento.

“Do ponto de vista teórico, a dinamização do comércio internacional funciona como um choque tecnológico positivo no país, aumentando sua produtividade e incrementando seu crescimento econômico de longo prazo”, prossegue a proposta protocolada no TSE. “Sugerimos, assim, a redução de muitas alíquotas de importação e das barreiras não tarifárias, em paralelo com a constituição de novos acordos bilaterais internacionais.”

A ideia é comemorada por economistas. “Dá para pensar que o próximo governo vai usar o comércio exterior para dar um choque de competição e, com isso, aumentar a produtividade”, diz a economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria. Mas não será uma tarefa fácil. “Há setores da economia que já se movimentam contra uma maior abertura e defendem a continuidade do protecionismo”, completa a especialista

Na terça-feira, Paulo Guedes, o homem-forte de Bolsonaro e provável ministro da Economia (a nova pasta que vai incluir a Fazenda e Indústria), disse que a abertura comercial será feita de forma gradual. A ideia é sincronizar a abertura com a redução dos impostos. “Não vamos fazer uma abertura abrupta para não prejudicar a indústria brasileira”, disse. “Ao contrário, vamos retomar o seu crescimento com juros baixos, reformas fiscais e desburocratização.” Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, a ideia é positiva. “Se a abertura for feita dessa forma, tem maiores chances de passar.”

Outro ponto celebrado por especialistas é a promessa de a política comercial de Bolsonaro ser mais pragmática na relação com os países com os maiores mercados — diferente dos governos anteriores do PT, que davam preferência ao intercâmbio com países com economias pequenas. A promessa do novo governo é por acordos comerciais com “países que possam agregar valor econômico e tecnológico ao Brasil”.

“Deixaremos de louvar ditaduras assassinas e desprezar ou mesmo atacar democracias importantes, como Estados Unidos, Israel e Itália”, consta no plano de governo. “Não mais faremos acordos comerciais espúrios ou entregaremos o patrimônio do povo brasileiro para ditadores internacionais.”

As primeiras declarações mostram que o Mercosul, tão celebrado nos anos de PT, será deixado em segundo plano. “O Mercosul está supervalorizado”, disse Bolsonaro, em entrevista à rede Record na segunda-feira. Segundo o presidente eleito, o bloco hoje impõe amarras ao país.

O economista-chefe da MB Associados acredita que a política de comércio exterior deve avançar em três frentes: realização de um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos, com a União Europeia e insistir na inclusão do Brasil na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o clube de países ricos. “A entrada no Brasil dará uma chancela de país equilibrado do ponto de vista econômico”, diz o especialista.

Endosso da academia

A bibliografia acadêmica dá suporte à tese de que a liberalização do comércio favorece a economia. Estudo do economista Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostra que, se o Brasil abrisse o mercado de um modo que o comércio exterior (importações mais exportações) saísse dos atuais 27% do PIB para 40% do PIB, o mesmo patamar da China, o crescimento potencial da economia, isto é, quanto o país cresce sem pressões inflacionárias, sairia de 2,5% para 4,5% ao ano.

Outro estudo, desta vez do Banco Mundial, afirma que o aumento do comércio exterior tiraria 6 milhões de brasileiros da pobreza. “Reduções de tarifas e de barreiras não tarifárias sobre importações aumentariam os rendimentos reais das famílias, inclusive entre os 40% mais pobres da população, por meio de preços mais baixos para o consumidor e mais empregos com salários mais elevados”, afirma o documento, intitulado “Emprego e crescimento — A agenda da produtividade”, divulgado em março.

Fonte: Diário de Pernambuco