Brasília – Mesmo sem estar com a sua economia funcionando a plena capacidade, a China é o único país em condições de abastecer o mundo e com os Estados Unidos e a Europa ainda procurando amenizar os efeitos da pandemia, o gigante asiático será a única potência capaz de participar de tudo. No contexto atual e no cenário que se avizinha, a China seguirá fortíssima.
Esta é a opinião do presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, ao analisar a conjuntura atual e as perspectivas futuras do comércio internacional com a Covid-19 afetando duramente as principais economias do planeta.
A China é vista pelo presidente da AEB como determinante para o desempenho do comércio internacional num ano marcado pelos efeitos da pandemia. Segundo ele,” todo o mundo quer reduzir a dependência da China mas neste momento não tem como fazê-lo. Por isto, o que se percebe é que a China está agredindo comercialmente os outros países, com uma política de preços baixíssimos e difícil de se enfrentar”.
José Augusto de Castro evita afirmar que no pós-pandemia a China assumirá a condição de maior economia do planeta mas concorda que o gigante asiático será a única potência em condição de participar de tudo: “ os EUA vão estar procurando resolver seus problemas com a pandemia e a Europa também. Os EUA e a Europa estão em crise e a China fortíssima, e não vai ser de uma hora para outra que isto vai mudar. Os outros países têm pouca expressão no mundo comercial e então a China vai ficar absoluta nesse período. Mas claramente quando outros países voltarem a operar em condições normais, vai haver uma mudança total no mundo”.
Em suas considerações sobre o pós-pandemia, José Augusto de Castro prevê um mundo ainda mais protecionista: “ teremos um mundo abertamente protecionista e a concorrência vai ficar muito mais acirrada, os países vão procurar reduzir a dependência da China, vamos sofrer grandes mudanças. Não será em 2020, mas a partir de 2021 e 2022 o mundo começará a adotar medidas mais fortes, visando reduzir a forte dependência direta ou indiretamente que ainda hoje tem da China. O Brasil, por exemplo, por conta das vendas de commodities, e os demais pela compra de insumos industriais da China. No fundo, por diferentes razões, todos têm uma grande dependência da China hoje”.
Nesse contexto marcado pelo protecionismo e pelo surgimento de uma China cada vez mais forte, o presidente da AEB vê com preocupação o enfraquecimento da OMC, que deverá se acentuar ainda mais com a renúncia de seu diretor-geral, o embaixador Roberto Azevêdo: “o esvaziamento da OMC é um grande problema. É preciso dar total apoio à Organização. Temos um mundo comercial e industrial em transformação, e a OMC que deveria regular o mundo , passa por uma fase de indefinições e incertezas. Quando o presidente Trump decidiu abandonar a OMC, no fundo ele está deixando cada um fazer o que quiser e isso, evidentemente, não é o ideal para o mundo. Os EUA são os primeiros a tentar enfraquecer a instituição. E o enfraquecimento da OMC, indiretamente, favorece a China, porque você não vai ter ninguém para contestar a China hoje. Ela vai fornecer seus subsídios, cometer práticas antidumping e tudo mais e vai se reclamar de quê?”
Ao falar sobre as relações entre o Brasil e a China, José Augusto condenou as críticas e comentários depreciativos feitos pelo presidente Jair Bolsonaro e seu entorno ao país asiático verbalmente e em postagens nas redes sociais, considerando que “é importante que parem de falar coisas, em relação à China, que nada somam para o Brasil. Pelo contrário. O que se ganha com isto? Nada. Nós estamos perdidos num barco em alto mar, o mastro caiu e nós estamos perdidos. Não estamos construindo nada. Pelo contrário. Estamos apenas gerando atritos com o nosso principal parceiro comercial”.
Fonte: Comex do Brasil