Para Mário Povia, o evento é uma forma de incentivar a pesquisa portuária e costeira no País
O Brasil foi escolhido para sediar, no próximo ano, o principal encontro sobre obras em portos, canais de navegação e regiões costeiras de nações em desenvolvimento no mundo, a Conferência de Engenharia Portuária e Costeira em Países em Desenvolvimento (Copedec). Organizado pela Associação Mundial de para a Infraestrutura do Transporte Aquaviário (Pianc) e pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), o evento é estratégico para o desenvolvimento dos complexos marítimos brasileiros, ao incentivar a pesquisa no setor e aproximar especialistas e cientistas brasileiros de seus pares internacionais.
A análise é do diretor-geral da Antaq, Mário Povia, que estará na Cidade na próxima terça-feira(26), para participar de um simpósio sobre os principais temas da Copedec e como ela poderá ajudar Santos e os demais portos do Brasil a vencer seus desafios logísticos e de infraestrutura. As expectativas para o evento em Santos e a conferência do Rio de Janeiro e, também, a importância de se apoiar a pesquisa no setor portuário são alguns dos temas abordados pelo dirigente da Antaq na entrevista que concedeu a A Tribuna. Confira, a seguir, os principais trechos.
Qual a importância para o Brasil e para seus portos da realização da Copedec no País, no próximo ano? Como a conferência pode ajudar a desenvolver o setor?
A Copedec é o principal evento de Engenharia Costeira e Portuária, que é realizado nos chamados países em desenvolvimento a cada quatro anos. A expectativa é que a edição de 2016, que ocorrerá no Rio de Janeiro, reúna um público proveniente de mais de 40 países. Esta será a segunda edição da Copedec no Brasil, após 20 anos. Sua importância não se restringe ao número de participantes, que deverá exceder a 350 pessoas, mas está também na qualidade de seu público, na medida em que consegue reunir os principais especialistas do mundo que atuam nesta área. Participam profissionais altamente gabaritados e acadêmicos renomados. Os trabalhos apresentados são de elevada qualidade, garantido por critérios de excelência estabelecidos pelo comitê de seleção de artigos, que reúne especialistas internacionais.
Há algum brasileiro?
Do Brasil, convidamos dois professores de renome para compor o grupo que selecionará os artigos. São eles o professor Eloi Melo Filho e o professor Paolo Alfredini. O Eloi ministrou aulas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro e nas universidades federais do Rio de Janeiro e de Santa Catarina e, atualmente, é professor associado da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande. O Paolo Alfredini é professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. A conferência será uma excelente oportunidade para mostrarmos aos especialistas do mundo todo os avanços que ocorreram nos últimos 20 anos nos setores portuário e aquaviário brasileiro. Também será uma grande oportunidade para troca de experiências, busca de soluções para os principais problemas setoriais e aprimoramento deste importante segmento logístico.
Hoje, Santos debate a viabilidade de aprofundar seu canal para 17 metros e mesmo a Codesp, a Autoridade Portuária, já estuda a construção de um terminal de águas profundas, o Santosvlakte, o que demandará pesquisas para ser desenvolvido. Como a conferência pode ajudar tais projetos?
A conferência destina-se exatamente à promoção de debates dessa natureza, constituindo-se em um fórum propício para que se discuta e apresente a experiência de outros países em questões similares. Aliás, o tema é de todo pertinente para ser discutido em um painel específico neste evento. Talvez seja conveniente aproveitar este momento para convidar a Codesp para desenvolver tal projeto durante a conferência. Por ser um assunto que está, digamos assim, na ordem do dia, certamente chamará a atenção dos participantes da Copedec, que terão a oportunidade de contribuir e debater as questões relacionadas a esses dois projetos.
Quais foram os impactos da realização do Copedec em outros países?
Em outros países, a Copedec serviu para aproximar pesquisadores, profissionais e acadêmicos. Esta integração, esta troca de experiências é muito importante para o desenvolvimento e aprimoramento do próprio setor aquaviário.
Como o Brasil foi escolhido para sediar a conferência?
O sucesso da primeira edição da Copedec, que aconteceu no Rio de Janeiro em 1995, seguramente foi levado em conta nesta escolha. É inegável, também, que a relevância da atividade aquaviária desenvolvida no País impactou tal decisão. Nesse sentido, chamo a atenção para a pujança do comércio exterior realizado pelo Brasil e também para a importância do setor de navegação nas atividades offshore, que dão suporte à exploração de petróleo e gás na chamada camada do pré-sal, que evidentemente vem chamando a atenção de especialistas de todo o mundo.
Quais os temas que serão debatidos na conferência?
O principal tema da Copedec de 2016 é Aperfeiçoando o Transporte Aquaviário e o Desenvolvimento Costeiro – O desafio de alcançar soluções integradas. E há sugestões de outros temas. Há aqueles sobre os quais gostaríamos que houvesse trabalhos a serem apresentados, como Navegação Interior e Logística Portuária, Transporte Marítimo de Cabotagem e Navegação Costeira e Transporte Aquaviário e Multimodal. Sabemos que o Brasil tem enorme potencial nessas áreas e gostaríamos de ver estes temas mais desenvolvidos. Além disso, precisamos romper paradigmas e pensar o transporte aquaviário de forma integrada, desde o porto até a conexão com outros modais de transporte, inclusive na solução porta-a-porta.
Na próxima terça-feira(19), haverá um simpósio, promovido pela Universidade Católica de Santos e pela Antaq, sobre a Copedec e como os pesquisadores brasileiros poderão participar dessa conferência. Qual a importância desse evento?
Este seminário preparatório é uma excelente oportunidade para alunos, professores e pesquisadores iniciarem o debate sobre os temas que estarão sendo discutidos no âmbito da Copedec. Além disso, a experiência de pesquisadores e acadêmicos em congressos internacionais pode auxiliar e orientar, principalmente, os estudantes de graduação, mestrado e doutorado a prepararem artigos a serem submetidos à Copedec. Será uma ótima oportunidade para aquecermos os motores.
A Copedec é, principalmente, um evento voltado a pesquisadores. Como está, hoje, o desenvolvimento científico relacionado ao setor portuário no Brasil?
Julgo que a Copedec não seja apenas um evento voltado a pesquisadores. Ela constitui-se em uma oportunidade ímpar para a realização de debates envolvendo pesquisadores, projetistas, empresas de engenharia, administradores de portos públicos e privados, gestores públicos que atuam na área, dentre outros. Enfim, é um evento completo, que permeia todas as áreas que têm alguma relação com portos e com o setor aquaviário. Sobre a questão do desenvolvimento científico relacionado a este setor, temos hoje no País aplicação das tecnologias mais recentes em termos de construção e gestão, como resultado de um processo de globalização cada vez mais presente. Isso, claro, atinge mais fortemente o setor privado, que vem expandindo sua atuação nesse setor, contribuindo para o desenvolvimento de nosso País. Cito como exemplo os terminais que movimentam carga geral em contêineres, cuja operação no Porto de Santos apresenta performance similar a de países desenvolvidos – Santos Brasil, BTP e Embraport. No que diz respeito ao setor de óleo e gás temos o que há de mais avançado do mundo operando no País, mormente envolvendo exploração em águas profundas.
A realização da Copedec no Brasil é uma forma de incentivar a pesquisa portuária e costeira no País. Que outras iniciativas existem com este mesmo fim? Que outras ações a ANTAQ desenvolve com tal objetivo?
Sem dúvida, a Copedec é uma forma de incentivar a pesquisa portuária e costeira no País. Assim como a Copedec, existem outras iniciativas que têm o mesmo objetivo. A Antaq procura promover seminários e estimula a participação de servidores em eventos relacionados ao setor aquaviário.
Que papel as universidades e a iniciativa privada podem ter para desenvolver a pesquisa científica no setor portuário?
O meio acadêmico, assim como a iniciativa privada, têm importante papel a desempenhar para difundir a pesquisa científica no setor portuário. Devemos incentivar a formação de especialistas no setor aquaviário que demanda por mão-de-obra cada vez mais qualificada, além disso, a parceria entre universidade e a iniciativa privada é muito importante na busca de conhecimento e soluções que permitam alavancar o setor aquaviário brasileiro. Muitas das questões demandadas pela iniciativa privada encontram soluções exatamente no meio acadêmico.
Fonte: A Tribuna