Desta vez a surpresa veio pelas mãos de sua controlada americana Pilgrim’s Pride, segunda maior empresa de carne de frango dos Estados Unidos. Sem ser atrapalhada pela onda de especulações que costuma preceder grandes negócios em seu setor, a Pilgrim’s fez ontem uma oferta hostil para comprar 100% de sua compatriota Hillshire Brands, uma das líderes no mercado de alimentos processados à base de carnes nos EUA.
A oferta em si chega a US$ 5,5 bilhões, mas, somadas dívidas que seriam assumidas pela Pilgrim’s, salta para US$ 6,4 bilhões. Se confirmada, será a maior aquisição – ainda que indireta – do grupo brasileiro, que caminha para se tornar a segunda maior empresa não financeira do Brasil em receita líquida, à frente da Vale e atrás da estatal Petrobras.
Após fechar a compra, no ano passado, de Seara e Zenda junto à Marfrig, pelo equivalente a R$ 5,85 bilhões em assunção de dívidas, a JBS passou a trabalhar com a expectativa de que sua receita líquida pudesse ultrapassar a marca de R$ 120 bilhões já em 2014.
Mesmo que vá adiante e receba o sinal verde de acionistas e autoridades regulatórias, a transação com a Hillshare Brands não estará concluída antes do terceiro trimestre. Seus resultados portanto, não seriam incorporados integralmente neste ano. Mas parte das vendas anuais de US$ 4 bilhões da Hillshare já fortaleceriam a JBS em sua “escalada” entre os grandes grupos brasileiros.
Ainda que essa “disputa” não esteja entre as preocupações da JBS, não deixa de ser emblemático que uma empresa de capital nacional ligada ao agronegócio – e que cresceu a partir de uma planta de processamento de cinco cabeças de gado por dia inaugurada em 1953 em Anápolis (GO) – tenha chegado a esse ponto.
Analistas lembram que, pelo menos até agora, a empresa é a única “campeã nacional” turbinada com recursos do governo que vingou. Quando recebeu o primeiro aporte de capital do BNDES, em 2007 (ano em que abriu o capital), o faturamento anual da JBS – que iniciara sua internacionalização em 2005, com a compra da Swift Armour na Argentina -, era da ordem de US$ 12 bilhões.
Mesmo assim, o BNDES não teve lucro com a injeção de mais de R$ 8 bilhões que fez na JBS desde 2007. Pelo contrário. Como o preço das ações da empresa patinou por muitos anos, o banco estatal viu o valor de sua participação na JBS cair dramaticamente.
De certa forma, a “contabilidade criativa” adotada pelo governo federal na virada de 2012 soou como um tiro no pé para o investimento do BNDES na JBS.
No apagar das luzes daquele ano, o governo fez uma espécie de “triangulação” para capitalizar a Caixa Econômica Federal e transferiu R$ 1,78 bilhão em ações da JBS que o BNDES detinha para a Caixa. Com isso, o banco de fomento reduziu sua fatia na JBS em dez pontos percentuais – atualmente, ainda detém 24,5% do capital da companhia. Essa transferência, porém, fez com que o BNDES amargasse um custo de R$ 2,9 bilhões, segundo dados do balanço do banco.
A operação feita com a Caixa ocorreu, ironicamente, às vésperas do melhor desempenho da história da JBS na bolsa paulista. No ano passado, as ações do grupo registram alta de 47,64%, a quarta maior alta do Ibovespa.
No entanto, o BNDES “perdeu” essa valorização ao transferir 10% das ações para a Caixa. Se não tivesse transferido nenhuma ação, o preço dos papéis da JBS detidos pelo BNDES ainda registrariam desvalorização de cerca de R$ 365 milhões, conforme cálculos do Valor Data. Essa “perda”, entretanto, em meados de 2012 chegou a superar R$ 2 bilhões.
Na oferta apresentada ontem, o valor oferecido pela Pilgrim’s foi de US$ 45 por ação, o que representou um prêmio de 22% sobre o valor de fechamento de sexta-feira das ações da Hillshire Brands, que atualmente conta com cerca de 9 mil funcionários.
Baseada em Chicago, a companhia, criada a partir do desmembramento de operações que pertenciam à Sara Lee, tem em seu portfólio marcas como Jimmy Dean, Ball Park, Hillshire Farms, State Fair, Sara Lee, Aidells, Gallo Salame, entre outras. E já havia entrado em acordo para adquirir as operações da também americana Pinnacle Foods, do segmento de carnes processadas – que não interessa à Pilgrim’s Pride.
Se a aquisição da Hillshire Brands pela Pillgrim’s for concretizada – a companhia informou que analisará a oferta que recebeu “minuciosamente” -, a receita líquida da Pilgrim’s alcançará aproximadamente US$ 12,4 bilhões por ano. O montante representa um crescimento de 47% em relação à receita registrada no período de 12 meses encerrado em março deste ano.
A Pilgrim’s, comprada pela JBS em 2009 por US$ 2,6 bilhões (incluindo dívidas), também informou que a empresa resultante da transação chegará a um resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) anualizado de US$ 1,4 bilhão, e que sua alavancagem, medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda, ficaria em 4,2 vezes.
Porém, a Pilgrim’s Pride acredita que essas projeções são “conservadoras”, dado que ela está otimista com a geração de caixa do negócio. Se a transação for adiante, a meta será reduzir a alavancagem para 3,5 vezes até o fim de 2015.
A Pilgrim’s Pride foi diversas vezes questionada, durante teleconferência nos EUA com analistas sobre o negócio, se a JBS ajudaria a financiar a operação, seja com caixa, dívida ou garantia para um empréstimo. Segundo a controlada americana, a controladora brasileira JBS não participará de nenhuma maneira.
Fabio Sandri, diretor financeiro da Pilgrim’s, afirmou aos analistas que as relações com bancos e outras eventuais instituições financeiras que ajudariam a levantar valores para a transação são boas e que as negociações já se iniciaram. Além disso, parte da aquisição viria do caixa da Pilgrim’s.
“Não vemos muitos problemas em conseguir esse dinheiro. Nossa relação é muito boa com bancos tanto nos Estados Unidos como ao redor do mundo”, disse Sandri. O diretor chegou a chamar a compra de “transação exclusiva da Pilgrim’s, sem qualquer participação da JBS”.
Durante a teleconferência, o presidente da Pilgrim’s, Bill Lovette, afirmou, ainda, que acredita na manutenção dos preços firmes da carne de frango no mercado americano até 2015. O executivo afirmou que já no segundo trimestre essa valorização trará resultados, sem revelar cifras.
“Tenho certeza que a combinação dos dois negócios será suave e as expectativas para venda de frango nos próximos 12 meses são otimistas, o que vai garantir um fluxo de caixa forte para nossa companhia”, declarou Lovette. “Essa geração vai nos permitir reduzir rapidamente nossa alavancagem”.
Sobre a integração dos negócios, o presidente da americana disse que a expectativa para sinergias é boa, mas não deu detalhes. Lovette afirmou que, com a eficiência operacional já demonstrada pela Pilgrim’s Pride e com o que chamou de “boa combinação de carne in natura e produtos de marca”, está otimista com os ganhos potenciais.
Para Sandri, mesmo que a relação entre endividamento líquido e Ebitda suba acima de 4 vezes por causa da aquisição, o custo de capital das operações da Pilgrim’s Pride será reduzido. Parte dessa melhora virá, também, da ideia da empresa de recomprar os bônus com vencimento em 2018, que atualmente pagam juros de 7,78%.
Em reação ao anúncio da oferta feita pela Pilgrim’s, a agência classificação de risco Moody’s informou que colocou o rating da companhia americana em revisão para possível rebaixamento.
Se for finalizada, a transação entre Pilgrim’s e Hillshire deixará também como saldo uma elevação do índice de alavancagem da JBS para 4,1 vezes, ante o nível atual de 3,26 vezes. Até o fim de 2015, a empresa brasileira poderia reduzir essa alavancagem para 3,25 vezes – e, no médio prazo, para 2,5 vezes. As projeções de ganhos para a empresa brasileira com a aquisição são positivas, especialmente porque a controlada da JBS vê grandes oportunidades de sinergias advindas dos produtos de maior margem da Hillshire.
Catarina Pedrosa, analista do Banco Espírito Santo (BES), minimiza o aumento da alavancagem da JBS previsto se a compra sair do papel. “A partir do momento em que a Pilgrim’s assumir a Hillshire, já começará a gerar Ebitda e, então, a alavancagem começará a cair, como ocorreu com a Seara”.
Para ela, o principal problema da oferta é o preço oferecido, considerado muito elevado. Segundo ela, a oferta de US$ 5,5 bilhões (US$ 45 por ação) implica múltiplo (relação entre valor de empresa e Ebitda) de 12,5 vezes.
Como comparação, ela cita a proposta que a Hillshire fez pela Pinnacle, que embute um múltiplo menor, de 9,6 vezes. Essa proposta, aliás, pode ser encarada como a “responsável” pela estratégia agressiva da Pilgrim’s, que teve de fazer oferta mais atrativa para os acionistas da Hillshire do que o resultado da combinação dos negócios da empresa com a Pinnacle. Ontem, as ações da JBS caíram 4,18% na BM&FBovespa.
Em comunicado enviado ontem à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a JBS limitou-se informar que “a oferta [apresentada pela Pilgrim’s] está alinhada com a estratégia global da JBS de reforçar sua presença no segmento de produtos de valor agregado, com marcas líderes em seus mercados, que ofereçam conveniência e praticidade aos seus consumidores. Esta aquisição amplia o caminho de expansão das margens da JBS, assim gerando valor a seus acionistas”.
Fonte: Alfonsin